quarta-feira, 2 de julho de 2008

Série Grandes Contos Verídicos - parte 1 - Graxa

tenho um del rey 1983.
semana passada uma brecada (o verbo 'brecar' detona com o 'frear') brusca estragou o freio esquerdo. o mecânico aqui da área logo disse que seria complexo encontrar a peça, mas parti atrás.
nas lojas nada, o negócio era raro mesmo. um irmão indicou um ferro-velho no sapopemba.

eu tava com o cabelo sujo, a barba idem e uma camiseta castigada mas, mesmo assim, ao flagrar a entrada, percebi que precisava mais.
trazia comigo a peça quebrada. não deu outra. emporcalhei minha mão na graxa da peça e passei na camiseta. coloquei um cigarro no canto da boca e entrei.

tinha uma espécie de balcão no meio do caos e atrás dele um sujeito. ele olhou pra mim.
mesmo com todo meu esforço o cara ainda era muito superior. tinha graxa na cara, olhos vermelhos e a camisa não cobria por completo a barriga. "diga lá, alemão!"

eu já tava esperto com a terminologia e logo mandei "então irmão, to atrás do cavalete da pinça de freio dianteira esquerda do del rey oito três". o cara me olhou com algum respeito "isso é difícil, hein alemão" (leia-se: "to ligado que tem mas vo te cobrar uma grana").
pra isso eu já vinha preparado. dei uma tragada e mandei "to sabendo. por isso o toninho (o malandro da área que indicou o lugar) me indicou aqui". ele fez um sinal pra que eu seguisse e saiu andando pelo meio das pilhas de ferro. fui atrás.

tinha pilhas de carcaças, de blocos de motor, de radiadores, rodas e outras peças que não sei o nome. eram todas extremamente belas. nessa hora me ocorreu uma grande vontade de pegar o celular e tirar umas fotos mas, se o sujeito desconfiasse que me interesso por artes visuais, todo o respeito que eu havia amealhado iria pelos ares. me contive.

no meio de um amontoado de ferros pendurados ele encontrou a peça. olhou pra ela pensando quanto me cobraria. dava pra ler ele pensando "a peça é rara. o moleque tem cara de bocó. mas foi o toninho que mandou. e ele tá todo sujo, deve entender alguma coisa".

"costumo vender por 70, mas te faço por 50"

saquei duas de 20. "to com 40 na mão. vale?"

ele passou a mão na grana e me entregou a peça.

1 comentários:

Thiago disse...

Muito boa essa estória!
Voce tem que sair mais vezes em locais bem loucos e sair escrevendo loucamente!!

Livro demoro!

falo